Não há roteiro para fazer podcast (ou será que sim?)

Uma das perguntas que mais me fazem a respeito da produção de podcasts é “existe um roteiro para se fazer podcast?” Não, não existe. As pessoas podem achar essa minha afirmação estranha pelo fato de ouvirem por aí tantos outros podcasts com formatos semelhantes, mas essa estrutura “copiada” acontece por conta de um fenômeno conseqüente, e não pelo seguimento de um padrão que teria sido oficialmente estabelecido.

Não precisa ser gênio para entender o que acontece: quando um veículo de comunicação conquista a maior parte da audiência de seu meio, é natural ele tornar-se referência para os outros menores e que surgem depois. Veja o caso da Rede Globo, por exemplo: ser líder absoluto de audiência faz com que seu “jeito de fazer TV” se tornasse uma espécie de padrão para se fazer TV no Brasil. E lá vão as outras emissoras “importar” algumas idéias e formatos da Globo para montar suas grades de programação fazendo novelas, programas jornalísticos da noite e programas de auditório nos fins de semana com seus “esqueletos” semelhantes, mas com uma cara toda própria da emissora em questão.

Nos caso da “podosfera” é a mesma coisa: hoje em dia é perfeitamente normal que as portas para este universo sejam o Nerdcast e o Rapaduracast, os podcasts mais ouvidos do país. O formato de ambos é simples de ser analisado: uma rápida apresentação de poucos minutos informando qual será o tema daquela edição, seção de e-mails e comentários sobre a edição anterior onde também são dados eventuais recados a respeito do podcast ou do site onde ele é hospedado (quadros menores podem surgir nesse espaço, como a divulgação de uma promoção) e, por fim, o “miolo” do programa, que consiste num bate-papo entre duas ou mais pessoas a respeito de um determinado assunto. Claro que o papo a respeito do tema vai puxando tópicos diversos que podem ser divididos por uma vírgula sonora ou recurso de edição para acentuar essa mudança de ponto e não cansar o ouvinte.

Após ouvir os dois ou três programas mais recentes desses dois podcasts, o ouvinte novato se encanta com a mídia e vai atrás de outros, dando de cara com vários que seguem a mesma estrutura – não se engane: nenhum outro podcast “imitou” a estrutura desses dois com a intenção de “ser uma cópia do Rapaduracast” ou de ser “o próximo Nerdcast”. Eles fizeram isso porque eram as únicas e mais fortes referências que tinham e porque, convenhamos, é um formato que funciona, do mesmo jeito que funciona o formato de um programa de auditório com brincadeiras e jogos, atrações musicais, participações de celebridades e dançarinas de academia no fundo do palco, tudo comandado por um apresentador cujas donas de casa identificam-se com ele.

Assim como todo ser humano tem a mesma estrutura corpórea (cabeça, tronco, dois braços, duas pernas, órgãos internos, pele, músculos, etc.), somos bem diferentes um do outro. Mesmo tendo a mesma estrutura descrita alguns parágrafos acima, podcasts como o Papo de Gordo, o Podcumê e o Máquina do Tempo são tão diferentes entre si e também dos dois podcasts mais ouvidos do Brasil que sequer podem ser chamados de “parentes”. Ao dar de cara com todo esse cenário já consolidado, o novato se empolga e diz “Ok, vou fazer um podcast também” e coloca a mão na massa. Vai ouvir todos os episódios do Metacast e já começa a pensar no formato de seu futuro programa: apresentação de poucos minutos, seção de e-mails logo depois…

Acontece que um podcast não é um corpo humano. Não há nenhuma regra que diga, por exemplo, que a seção de e-mails TEM QUE VIR antes do programa em si ou mesmo que tenha que tê-lo dentro do episódio. É o caso de podcasts como o Piratacast ou o Spin-Off que optaram por fazer episódios periódicos exclusivos para essa função, por exemplo. A estrutura do Nerdcast e do Rapaduracast é funcional, lógica e tão estabelecida nos dias de hoje que os ouvintes se sentem até desconfortáveis quando encontram algo diferente dessa cartilha, mas não é nenhuma regra. Sinta-se livre para ousar, experimentar com o objetivo de inovar, não só na estrutura, mas no conteúdo, na forma como ele será apresentado ou produzido…

O programa é seu! Faça aquilo que você gostaria de ouvir, e não aquilo que já ouve – se você quer ouvir mais daquilo que já ouve, não há problema nenhum e meio caminho já está andado rumo à criação de seu programa. Se não, extrapole todas as alternativas que conseguir pensar em seu laboratório, edite-as e passe dias ouvindo-as sozinho, mostrando para seus amigos e parentes para obter outras opiniões. Quando se sentir confortável com o que tem em mãos, ponha seu bloco (ou melhor, seu podcast) na rua e seja bem vindo!

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7 tocks para “Não há roteiro para fazer podcast (ou será que sim?)”

  • @paulopatux says:

    �timo texto, ótima crítica, ótima análise.
    Sincera, clara, elucidativa.
    Gostei!
    “RT” sem nenhum esforço! =)

  • Wagner Brito says:

    E a o caso do meu, que simplesmente colocou os emails para o final do programa =D

  • Marcelo Salgado says:

    Concordo plenamente. Acrescentaria somente que:
    1. Há também a inspiração, que pode (na maioria das vezes não) levar o inspirado a superar seu inspirador.
    2. Um podcast pode começar baseado na estrutura dos “grandes” e, com a tríade tempo-experiência-feedback, ir se transformando e tomando alma própria.
    Não sei se o PodCumê já tem essa alma, mas certamente, mesmo tendo a estrutura mais comum, procura ter seu estilo, seja nas vinhetas, seja na já tradicional participação especial dos melhores podcasters dessa “mixórdia”, como diria o Leo Lopes, do @radiofobia.
    Como sempre, belo e objetivo texto do mestre Ock! Fico lisonjeado de ter o PodCumê citado. Ainda mais entre Papo de Gordo e Máquina do Tempo, dois dos meus programas preferidos! Obrigado!
    PS.: Como o @wag disse, há também essa opção de colocar os e-mails no final (até acho mais estratégica), como faz a Radioblá e o WeRgeeks. E há programas que não criam essa seção e que já tem seu estilo próprio, como o Matando Robôs Gigantes.

  • Maycon, mais conhecido como Jabour_rio says:

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    Legal os “tocks”, filhão…
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    Acho perfeitamente normal que os podcasters acompanhem (pelo menos no começo) o estilo dos nossos amigos mais famosos e tal, mas é muito importante que se estabeleça o mais rápido possível uma identidade… O ouvinte, muitas vezes, ouve uma apresentação parecida com a do NerdCast e nem ouve o restante do podcast… Pensa “Ah… Ã? mais um nerdwhatever” e muitas vezes nem volta… O podcaster pode deixar claro suas influências, mas deve procurar fazer um podcast o mais original possível… Acredito que só dessa forma ele conseguirá se destacar na multidão de (bons) podcasts que está se formando no Brasil…
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    No mais, valeu por citar o Piratacast… O feedback é fundamental pra gente, e como percebemos que um quadro de emails no meio do nosso podcast faria com que muitas pessoas desistissem de ouvir o restante do podcast, decidimos fazer o Papo Pirata separado e dessa forma construimos um podcast feito por ouvintes e para os ouvintes… A audiência inicial do papo pirata era de 20% a 30% do piratacast e hoje já chega aos 50%, o que nos leva a crer que o formato se feito da maneira correta (leitura, discussão, acréscimo da pauta dando crédito aos ouvintes, etc.), dá resultados… Se fizéssemos um programa “só” com leitura de emails, de forma crua e objetiva tenho certeza que os ouvintes não aprovariam o formato… Cabe agora os aspirantes a podcasters escolherem entre os formatos já consagrados ou quem sabe inventar um novo…
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  • Almighty says:

    O que eu mais observo num podcast é conteúdo, diversão e edição (exatamente nessa ordem). Diversão não no sentido de “ser engraçado”, mas sim entretenimento, ou pelo menos ser agradável de se ouvir. Existem podcasts sérios, como o Escriba Café, que são maravilhosos.
    Alguns podcasts possuem ótimo conteúdo, mas não dão a mínima pra qualidade de edição e/ou qualidade de áudio. Não precisa ser uma edição primorosa, mas deve haver um cuidado básico pra ajudar na dinâmica do podcast. Claro que isso a gente aprende com a prática.

  • Marcus Rocha says:

    Muitos andam dizendo que o podcast brasileiro vai acabar. Eu discordo, mas eu concordo com algo que você disse no seu texto. Para mim, quem vai acabar é esse formato pré-estabelecido de podcast.

    Podem dizer, esse roteiro (ou formato) de podcast é vencedor, porém acho que ele demanda muita coisa que o podcast iniciante pode acabar soterrado. Primeiro pq ele exige que o programa seja semanal. Segundo, como a proposta é falar de um tema, ele tem que estudar aquele tema. Terceiro, gravação via Skype e todas as dificuldades inerentes que ela traz. Quarta, uma edição forte, pesada, com música, efeitos sonoros.

    O podcaster está cheio de trabalho. Ele tem mais podcast que dias para fazé-lo. Esse roteiro demanda muito tempo que ele não tem. Os podcasters que conseguem ter um retorno financeiro, tem uma motivação fortíssima para continuar, mas aquele que está lutando para achar seu lugar ao sol fica amargando prejuízo. Gasta horas onde ele podia estar descansando, curtindo família ou relacionamentos ou mesmo trabalhando, na frente do computador.

    Não é a toa que muita gente desiste. Seja no início ou como o Nowloading, que tava a quase 2 anos e simplesmente acabou. O grande problema do formato é que ele exige que vc faça isso TODA SEMANA. � muito trabalho para apenas 7 dias. E você precisa ter muito dinheiro para queimar ou muita disposição, força de vontade de querer levar isso a adiante.

    Podcasts que inovam em seu formato, como o Matando Robôs Gigantes, são interessantes, apesar de que eles com certeza têm muito trabalho para lançar três programas curtos por semana. Ou aqueles que preferem formato quinzenal, como o Papo de Gordo, “ganham” 8 dias a mais, porém o trabalho continua o mesmo.

    Acho que já prolonguei demais, só queria deixar aqui minha opinião.


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