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O trágico fim de Mia Zapata

O trágico fim de Mia Zapata

Poucas pessoas no Brasil conhecem a banda The Gits e sua frontwoman, a vocalista Mia Zapata. É uma história de fim trágico, imbecil e, que se não tivesse sido encerrada nessa época, do jeito que foi, poderia estar sendo contada até hoje – cheia de altos e baixos, com certeza, mas teria muita coisa a contar. Infelizmente, aconteceu como aconteceu, e isso precisa ser lembrado.

Mia esteve à frente desta banda de punk/ grunge rock desde 1986, quando se juntaram em Ohio, mas foi em Seattle, para onde eles se mudaram em 1989, que o cenário da música alternativa americana tomou conhecimento deles: um som selvagem, original, genuíno, cheio de energia e raiva, mas sem parecer “mimimi” de adolescente: Mia realmente passava, através do microfone, um incômodo com as coisas como estão e vontade de muda-las. Em suma: se você gosta de Nirvana, é porque nunca ouviu The Gits. Dogmas mudarão em sua mente depois de um álbum deles!

 

O trágico fim

7 de julho de 1993, por volta das 2h da manhã. Após sair do Comet Tavern, Mia visitou um amigo que morava perto do clube de rock (a última pessoa que a viu com vida) e tomou seu rumo a caminho de casa.

Mia caminhava pela rua ouvindo seu walkman e, provavelmente por isso, não ouviu o seu agressor se aproximando. O corpo foi encontrado, com sinais de espancamento e estupro, no cruzamento da 24th Avenue South com a South Washington Street por volta das 3h. Ela tinha 27 anos.

A polícia de Seattle, no entanto, não deu muita atenção à ocorrência – para eles, isso foi só mais um caso comum de estupro “sem solução”.

 

Revolta e ação

Indignados com a falta de atenção da polícia, as bandas da cena rock de Seattle – as já famosas Pearl Jam, Nirvana, Soundgarden e outras – e mesmo artistas de fora da cidade que eram fãs dos Gits se mobilizaram juntando recursos financeiros com shows beneficentes e outras ações para contratar um detetive particular a fim de descobrir quem é o assassino de Zapata.

A ação mais famosa foi o lançamento do álbum Evil Stig (ao ler de trás pra frente, você percebe “Gits Live”), que marca a união de Joan Jett com os membros remanescentes do The Gits, compondo juntos músicas que têm a mesma “pegada” dos álbuns com Mia. Todo o lucro obtido com o álbum foi transferido para o fundo dedicado a pagar o detetive particular que desvendaria o caso.

Após uma investigação que levou cinco anos, o detetive particular Leigh Hearon chegou até o pescador Jesus Mezquia, que estava no Comet Tavern no mesmo dia que Mia e teria a seguido naquela noite. Mezquia foi julgado e condenado a 36 anos de prisão.

 

Indignação

O fato de o assassino de Mia Zapata ter sido descoberto e estar preso não muda o fato de que a frontwoman do The Gits continua morta e enterrada no Cave Hill Cemetery, em Louisville, sua cidade natal. Mia nunca mais poderá compor novas músicas e letras, não poderá gravar novos álbuns, não poderá cantar em mais shows.

Mia passou a sua vida artística tentando explicar no palco a sua raiva e incômodo com as coisas do jeito que são, mas sua mensagem só alcançou o cérebro dos fãs após a sua morte, como um espancamento. Fomos espancados pela mensagem fatídica de que ninguém – NINGUÉM – merece ser tratado ou enxergado assim, não importa se esse tratamento leve a vítima à morte ou não. Não importa se foi apenas um ou 33 caras. Não importa se foi um completo estranho ou seu familiar – seu pai, seu avô, seu tio… Esses criminosos não apenas tiram suas vidas ou, caso essas sobrevivam, suas vontades de viver: eles lhe roubam todo o potencial da mulher em querer ser quem ela quiser! Quantas Mias Zapatas nós devemos ter no mundo que, depois de passarem por experiências como essas, caso tenham sobrevivido, adquiriram sequelas psicológicas irreversíveis que as impedem de atingirem seus potenciais, sejam eles artísticos, espirituais, mentais, físicos, o que for?

Subir no palco e cantar ou tocar rock não é privilégio dos homens. Esse palco é aberto para quem tiver algo a falar e Mia tinha muito a gritar, mas sua voz foi calada por um homem que a enxergou apenas como um veículo de seu divertimento de inferiorização – e nem coloco a questão sexual aqui, pois estupro nada tem a ver com sexo, mas com demonstração bruta de uma superioridade imbecil que não existe. A morte de Mia nos ensina (ou deveria nos ensinar) que as mulheres são, sim, seres humanos e devem ser tratados como tais. Que os homens aprendam, de uma vez por todas, a deixa-las ser quem quiser, falar o que quiser, gritar o que quiser, andar como quiser, vestir o que quiser. Isso não é um privilégio que as estamos dando, mas um direito que lhes foram negadas durante toda a história da humanidade civilizada.

Deixem as próximas Mias Zapatas chegarem ao microfone. Liberem o palco para elas e dancem, batam cabeça e façam coro com o que elas têm a gritar. Não existe nada mais rock n’ roll do que deixar o som rolar de todos os lados até incomodar aqueles que se recusam a ouvi-lo. Mia sabia disso, bem como todos aqueles que apoiaram sua investigação. Saiba disso você também.

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