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Ouvir música é diferente de escutar música

Ouvir música é diferente de escutar música

Um dos motivos que mais ouço os amantes de vinil (antigos e atuais) para justificarem sua preferência pela clássica “bolachona preta” é o fato de que, com ele, você pode realmente apreciar a música. A falta de portabilidade dessa mídia exige que você pare na frente do aparelho de som e não faça mais nada além de ouvir de verdade o álbum – aproveita também para apreciar outros aspectos dessa experiência como contemplar a capa do discão, os encartes, acompanhar as letras que vem dentro… Em suma, “degustar” a música de um jeito que, hoje em dia, não parece ser possível.

Com a praticidade do CD e, logo depois, do MP3 e do streaming, parece que música virou apenas “trilha sonora de fundo” para os afazeres. As pessoas “ouvem” música apenas em seus fones de ouvido, quando estão em trânsito, na academia, trabalhando em frente ao computador… Estamos sempre fazendo algo enquanto o som nos embala durante nossas tarefas.

Mas não precisa ser assim.

O disco de vinil força as pessoas a ficarem em frente ao som e apreciar a música – e isso é uma coisa boa.
O disco de vinil força as pessoas a ficarem em frente ao som e apreciar a música – e isso é uma coisa boa.

A portabilidade da música pode, sim, ter gerado esse costume em todos nós, mas isso é um reflexo de um cotidiano atarefado do ser humano moderno, e não da mudança de mídia. O som digital atendeu à uma vontade dessas pessoas de encaixar o ato de ouvir música em um processo de “dinamização de tempo”, já que não há mais horas hábeis no dia útil para se dedicar ao prazer de degustar um álbum, e não o contrário.

Os amantes de música (aqueles que REALMENTE curtem ouvir música com atenção e dedicação) encontraram naquela antiga prática que tinham quando crianças ou, no caso dos mais jovens, que ouviram seus pais contando sobre como era que eles curtiam seus bons e velhos LPs, uma forma de forçarem-se a resgatar esse prazer – já que não é nada prático andar por aí com um walkman de vinil.

Proponho então um exercício para aqueles que, por seus motivos particulares, não querem ou não podem aderir ao LP: tente, por alguns minutos do seu dia, apenas ouvir música sem fazer nada mais – pelo seu computador mesmo! Pegue seu CD ou sua “discoteca de MP3” ou acesse o seu serviço de streaming favorito e escolha uma música, qualquer música que você goste muito. Aperte o play, procure o lugar mais confortável de sua casa, acomode-se e aprecie. Pode deixar o som rolando através das caixas de som do seu computador, pelo fone de ouvido, colocar no aparelho de som… A escolha é sua, desde que você esteja confortável e não faça nada além de prestar atenção na música. Se quiser, procure pela letra na Internet e acompanhe-a lendo enquanto rola o som, mas tente não desviar a atenção navegando pela Internet enquanto isso. Foco!

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Ouvir música com atenção e dedicação não é um privilégio do vinil: você pode fazer isso através de qualquer mídia.

Se você conseguir fazer isso com apenas uma música por vez, durante alguns dias da semana, sinta-se à vontade para aumentar a quantidade de músicas ou de executar essa prática em mais dias da semana, até que você esteja acostumado a curtir seu artista ou banda preferido com total atenção. Com o tempo, você vai querer dedicar esse tempo à si mesmo para curtir um álbum inteiro, não importa a fonte, e perceberá tantas nuances e novos sons dentro daquela música que conhece há anos que notará que nunca a ouviu de verdade – e pode vir a amá-la ainda mais ou odiá-la depois que conhece-la à fundo.

Ouvir música, e não apenas escutá-la, querer um costume obtido pela prática. O vinil ajuda a obter esse costume, mas não é a única ferramenta para isso. As tecnologias de áudio foram criadas para nos ajudar, mas o resultado final, favorável ou prejudicial, depende da forma como nós as utilizamos. Que tal fazer bom uso delas?

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